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Autonomia na educação: afinal, como cultivá-la?

Atualizado: 23 de mar. de 2023

Para que uma criança possa crescer sendo autônoma, é preciso que ela vivencie autonomia em sua rotina, em suas escolhas e em suas responsabilidades.


Essas experiências com autonomia na prática são essenciais desde a primeira infância - já na educação infantil.


Neste texto contaremos um pouco sobre essas vivências e porque elas são importantes num contexto de educação holística.


O que é a autonomia na educação?

Autonomia é a capacidade de uma pessoa ou de uma comunidade de tomar decisões que as afetam, construindo suas próprias regras, refletindo sobre as consequências de suas ações, assumindo responsabilidades.

A experiência da democracia leva o indivíduo à autonomia.

O indivíduo só poderá alcançar a autonomia se pouco a pouco tiver a oportunidade de presenciar uma verdadeira democracia, participando efetivamente de decisões que afetam sua vida pessoal e social.

Na maioria das escolas, o desenvolvimento da autonomia está apenas nos discursos enquanto as práticas pedagógicas continuam as mesmas.

A autonomia dos estudantes só será possível se os educadores não apenas a tiverem como objetivo, mas sim a vivenciarem no cotidiano de sua prática escolar.

Para que o indivíduo tenha a capacidade de se governar, ele precisa viver desde cedo esse princípio, conquistando gradativamente sua autonomia.


Como cultivar a autonomia na educação?

Jean Piaget (1932-1977), em suas obras, discorre sobre autonomia deixando claro que ela só será desenvolvida num clima onde não haja opressão intelectual e moral; ambientes autoritários impedem o desenvolvimento da verdadeira autonomia.

A autonomia é também a capacidade de o sujeito compreender as contradições em seu pensamento e poder comparar suas ideias e valores aos de outras pessoas, estabelecendo critérios de justiça e igualdade que, muitas vezes, o levarão a se contrapor à autoridade e às tradições da sociedade para decidir entre o certo e o errado.

Assim, se a criança conviver em um “ambiente cooperativo”, e, portanto, democrático, que solicite trocas sociais, no qual seja respeitada pelo adulto e participe ativamente dos processos de tomada de decisões, poderá atingir sua autonomia, tornando-se uma verdadeira cidadã.


L. para o F.: "Deixa que eu te ensino."


A autonomia segundo Jean Piaget


Piaget nos mostra, em seus estudos, que o sujeito tem um papel ativo na construção dos valores, das normas de conduta.


Há uma interação, isto é, um caminho de ida-e-volta, com o indivíduo atuando sobre o meio e o meio sobre ele, e não simplesmente a internalização pura desse ambiente.


Na realidade, não é apenas um ou outro fator isolado (família, traços de personalidade, escola, amigos, meios de comunicação etc.), mas o conjunto deles que contribui nesse processo de construção de valores morais.


Será durante a convivência diária, desde pequena, com o adulto, com seus pares, com as situações escolares, com os problemas com os quais se defronta, e também experimentando, agindo, que a criança irá construir seus valores, princípios e normas.


Ao relacionarmo-nos uns com os outros, é imprescindível a existência de regras que visam garantir a harmonia do convívio social.


Aliás, as regras só existem em função da convivência humana e da necessidade de regulá-la. Contudo, para Piaget o importante não são as normas em si, mas sim, o porquê as seguimos.


Por exemplo, uma pessoa pode não furtar por medo de ser apanhada e outra porque os objetos não lhe pertencem.


Ambas não furtaram, mas apesar de ser o mesmo ato, possuíam motivações bastante distintas... Desta forma, o valor moral de uma ação não está na mera obediência às regras determinadas socialmente, mas sim no princípio inerente a cada ação.


O desenvolvimento moral foi bem sucedido quando, com o tempo, esse controle vai se tornando interno, isto é, um autocontrole, uma obediência às normas que não depende mais do olhar dos adultos ou de outras pessoas. É a moral autônoma.


É importante não confundir autonomia com individualismo ou liberdade para fazer o que bem entende.


Na autonomia é preciso coordenar os diferentes fatores relevantes para decidir agir da melhor maneira para todos os envolvidos, levando em consideração o princípio da equidade, ou seja, as diferenças, os direitos, os sentimentos, as perspectivas de si e as dos outros.


O indivíduo que é autônomo segue regras morais que emergem dos sentimentos internos que o obrigam a considerar os outros além de si, havendo a reciprocidade. Desta forma, a fonte das regras não está mais nos outros, na comunidade ou em uma autoridade (como na moral heterônoma), mas no próprio indivíduo (auto-regulação).


A transformação na educação


Nesse sentido, é importante que observemos o percurso educativo como um ecossistema, onde os educadores se colocam como provocadores de aprendizagem desde a construção do planejamento até a avaliação. A transformação da educação que queremos celebrar remete a uma mudança de mentalidade, de chave de leitura.


Quando vamos a uma exposição de arte, sabemos que as obras ali exibidas passaram por um processo minucioso de curadoria, que as selecionou de acordo com os objetivos daquela exposição.

Cada obra foi escolhida intencionalmente, pensando em sua conexão com as outras e no que ela pode contribuir para que os espectadores compreendam o fio condutor daquele percurso.

Nossos olhares, como público-ativo, são guiados ao longo do caminho para buscar as conexões e não apenas para apreciar as peças de arte em suas peculiaridades. Cabe ao curador esculpir as pontes e nos conduzir para os objetivos daquele percurso. Curadoria também é obra de arte.

Deveríamos, então, pensar no trabalho do professor como curador, agindo como um desenhista de percursos aprendentes e proporcionando experiências significativas.

A seleção de conteúdos deve fazer parte de uma grande história que será construída com e não para os alunos. As obras de arte sempre serão feitas de encontros. Os estudantes também são responsáveis pelas suas criações, na medida em que as interpretam a partir de suas vivências.

Diversos estudos no campo da educação e da neurocognição vêm demonstrando que a aprendizagem é estabelecida de forma muito mais significativa por meio de experiências que mobilizem os estudantes através de processos ativos.


G. liderando um grupo de estudos para a prova de ciências.


Assim, quando a abordagem educativa permite a imersão dos alunos em experiências mais conectadas às suas realidades, possibilitando que eles sejam protagonistas das suas próprias trajetórias, que exerçam o direito de experimentar, de errar, de rasurar e de se reinventar, a aprendizagem ganha mais significado e as compreensões são mais duradouras.


É a partir dessas vivências e desse princípios que a autonomia pode ser praticada na escola, inclusive na educação infantil.


Veja aqui o depoimento de uma estudante de quarto ano sobre a rotina dela na escola.


E para saber tudo sobre educação holística e porque ela responde às demandas do mundo atual, acesse aqui.




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