Diálogo - convencer, concordar ou compreender?

Há alguns anos eu participei de uma formação incrível para líderes íntegros. Nesta formação tivemos uma proposta muito interessante e que eu jamais esqueci. Era uma roda de diálogo. A proposta era aparentemente simples - um tema polêmico seria colocado e as pessoas começariam uma conversa sobre ele. O tema sugerido foi aborto.


Grupo formado majoritariamente por mulheres, a conversa começou (na medida do possível para o tema) leve: algumas mulheres começaram a contar de colegas, histórias de mulheres que conheciam, uma prima, uma amiga, uma conhecida da conhecida… No meio dessas histórias, um homem se manifestou: "Eu sou contra".


Como se uma bomba tivesse sido arremessada, o clima pesou e a energia da sala mudou em um minuto. Argumentos dos mais brandos aos mais grosseiros foram dirigidos a ele. Indignação por parte da maioria do grupo. O que você sabe sobre isso? Que direito tem pra dizer que é contra? Ele virou alvo e mal conseguiu falar depois do famigerado: Sou contra.


O mediador interrompeu o "diálogo". A coisa estava tão acalorada que ele teve dificuldade de interromper a conversa. Custou a conseguir nos lembrar que o objetivo da vivência não era discutir o aborto e sim discutir as questões envolvidas no conceito de DIÁLOGO.


Após uma rodada de feedback sobre o que sentimos e como todos percebemos o peso do clima, ele propôs uma nova rodada. Mesmo tema, mas uma regra de ouro: todas as frases tinham que começar com "EU".


A conversa demorou a engrenar. Ele teve que interromper muitas vezes para garantir que as frases começassem com "EU"; as histórias deveriam ser sobre nós e não sobre outras pessoas, deveriam ser sobre se mostrar vulnerável e não sobre querer convencer ou "lacrar". Depois de muito tentar, começaram a sair algumas "histórias do EU"...e, de repente: "EU tinha uma namorada que sumiu. Fiquei um tempo sem conseguir encontrá-la ou falar com ela. Não sabia o que tinha acontecido. Meses depois descobri que ela tinha engravidado e abortado. O filho era meu. Ela nunca me contou".


Silêncio.



Depois desse momento, pra mim, uma luz se acendeu. Claro!!! Era esse o exercício do diálogo. Eu podia continuar discordando dele, mas já não tinha como achar ele um insensível, ou idiota (como havia sido dito inúmeras vezes na primeira rodada). Essa era a tão proclamada empatia. Eu podia ter a opinião que fosse mas, a partir daquele relato pessoal (muito mais longo e emocionado que a frase que eu coloquei aqui) não havia como não compreendê-lo. Claro que ele tinha aquela opinião, ele tinha vivido algo.


Daquele dia em diante eu sempre penso: o que será que faz a pessoa pensar assim? Essa consciência não me faz ser a compreensiva, ou ser empática sempre, mas ajuda muito na tentativa de abrir espaço para um verdadeiro diálogo. Entre convencer, concordar ou compreender, talvez o mundo esteja precisando um pouquinho mais desse último.


DIÁLOGO: Diálogo é a conversação entre duas ou mais pessoas. Muitos acreditam erroneamente que "di" significaria "dois", e portanto a palavra se limitaria à conversa entre duas pessoas. No entanto, a palavra, que vem do grego, é formada pelo prefixo dia-, que significa "por intermédio de", e por logos, que significa "palavra". Ou seja, "por meio da palavra", designando "conversa" ou "conversação". Embora se desenvolva a partir de pontos de vista diferentes, o verdadeiro diálogo supõe um clima de boa vontade e compreensão recíproca. Como um gênero, os diálogos mais antigos remontam no Oriente Médio e Ásia ao ano de 1433 no Japão, disputas sumérias preservadas em cópias a partir do final do terceiro milênio a.C.




Andressa Lutiano

Especialista em Inovação e Educação Transformadora

Sócia-fundadora Wish School

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