Dizer "sim" podendo dizer "não"

Há muitos anos eu tinha vontade de ter a experiência de morar fora do país. Comecei a me planejar para isso e uma grande motivação que encontrei foi a possibilidade de fazer um mestrado (algo que também já pensava há algum tempo). Durante um processo como esse, planejamos muitas coisas e criamos milhares de expectativas. Podemos visualizar uma infinidade de possibilidades e acontecimentos, mas não conseguimos captar todas as nuances desse acontecimento.


Desde a chegada no aeroporto posso contar sobre situações que eu e o Fernando passamos que nos fizeram refletir sobre essas preparações. Achamos que, porque falamos inglês fluentemente e já visitamos o país e a cidade várias vezes, nos sentiríamos mais à vontade ao chegar aqui. Mas existe uma grande diferença entre ser turista e ser habitante que eu não imaginava. A primeira ida ao mercado nos deixou estarrecidos porque não conhecíamos nenhuma marca de azeite e não fazíamos ideia de qual escolher. Os procedimentos necessários para se alugar um apartamento e de fato fazer a mudança foram outra aventura. E assim posso contar mais algumas boas histórias.


Uma delas é sobre o mestrado que começarei em setembro. Quando comecei a pesquisar essa possibilidade, estava convencida de que precisava de uma estrutura mais estabelecida. Pode parecer irônico, pensando no que acredito e pratico como educação na Wish, mas eu cresci (como a maioria de nós) em um sistema tradicional de ensino durante todo o meu percurso escolar e universitário. Apesar de não radicalmente rígido, apresentava os mesmos pilares que conhecemos: uma grade horária estabelecida por alguém que não se sabe exatamente quem; o conhecimento bem delimitado linearmente (História do Teatro 1, História do Teatro 2, etc); avaliação por provas (aqui preciso fazer uma ressalva, pois a universidade por sua característica artística foi bastante flexível nesse sentido).


Para o mestrado, encontrei um curso que me parecia unir o melhor dos dois mundos: matérias que falam sobre educação democrática, holística e até uma ênfase em "wellbeing" e uma instituição com uma estrutura estabelecida. Imaginem a minha surpresa quando, agora que começo a me inteirar mais da "estrutura" do curso, descubro que eu não vou receber uma grade horária estabelecida por alguém. A minha grade horária será só minha e dependerá da escolha que eu fizer sobre as matérias que eu quiser para aquele semestre.


Pânico! São 300 mil ofertas e possibilidades! Quero fazer todas! A escolha que eu fizer agora vai me levar por um certo caminho de carreira no futuro. O que eu quero fazer? O que eu quero ser daqui para frente? Ao mesmo tempo que dou pulos de alegria por ter encontrado uma universidade que já pratica (pelo menos pelo que percebi até agora) princípios de mudança na educação, me sinto como o quadro "O grito" de pensar nas escolhas que preciso fazer. Escolher já foi tema de terapia para mim. Tenho muita dificuldade em pensar deixar de lado um mundo de possibilidades, porque, afinal, a cada escolha que fazemos abrimos um caminho de possibilidades, mas fechamos outro com outras mil. Como a vida sempre dá um jeito de jogar na nossa cara aquilo que precisamos aprender e lidar, agora vai ser a hora de eu lidar com escolher.


Ao mesmo tempo em que tudo isso estava acontecendo, passei a investigar mais de perto o conceito de self-directed learning e me inseri nesse processo de ser um self-directed learner. Uma informação muito interessante que descobri nessa pesquisa foi a importância do consentimento para um self-directed learner. Segundo Blake Boles em seu livro "The Art of Self-directed Learning", consentimento significa:

  • entender o que você está se comprometendo a fazer;

  • saber quais são as alternativas;

  • dizer "sim" enquanto mantém o poder de dizer "não".

Ou seja, saber quais são as consequências daquilo que você está escolhendo, quais são as possíveis opções que você tem e, o mais importante para mim, mesmo escolhendo uma coisa, manter o poder de dizer "não, acho que não é bem por aqui". O poder de dizer "não" nos dá uma segurança de que tudo bem voltar atrás na minha escolha, tudo bem se eu achei que ia gostar disso mas não gostei, tudo bem errar! Porque aí eu posso tentar de novo, testar outra coisa.


E se falamos que aprendemos a todo momento com todas as situações que lidamos na vida, começar algo e perceber que não era por aí, não significa jogar todo o tempo e dedicação investidos naquilo fora. Significa que absorveremos mais aprendizados ainda.

O poder de dizer "não" me ajudou a respirar "no saco de pão" com relação às minhas escolhas para o mestrado. Estou analisando as alternativas para poder entender melhor com que estou me comprometendo. A expectativa para o início das aulas (provavelmente virtuais nesse momento) está alta… conto mais para vocês quando descobrir.


Marina Gadioli

Sócia-diretora, multi-tarefas e correspondente internacional


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