Homeschooling/Unschooling - Ensinar para a vida

Essa semana eu estava lendo um artigo sobre o que significa ser uma pessoa educada (no sentido de quem percorre uma trajetória "acadêmica") e algo me chamou a atenção. O artigo fala de todo o contexto da educação pública americana e das novas formas de educação que surgiram nos últimos anos, entre elas o homeschooling e o unschooling.

Para aqueles que não conhecem esses termos, homeschooling é aquele tipo de educação que acontece em casa, em que a família torna-se responsável pela educação da criança. Essa é uma prática legalmente aceita nos EUA e em alguns outros países (não no Brasil), mas existem muitas críticas a esse modelo. O senso comum traz a questão da interação social como uma delas - como as crianças não vão à escola, não teriam o convívio social com outras crianças e, portanto, também não desenvolveriam as inúmeras habilidades e competências que estão ligadas a isso. Uma questão importante de se colocar é que o homeschooling ainda precisa lidar com desafios muito parecidos com os que estão presentes na escola, já que muitos pais optam por comprar programas educacionais muito parecidos com o que é oferecido pela escola tradicional, com conteúdos, lições, provas… Aí é que entra a diferença entre o homeschooling e o unschooling.

Unschooling é o movimento mais livre do homeschooling. Também são famílias que optaram por tirar as crianças do ambiente escolar. Mas, diferente daqueles pais que optam por uma quase reprodução da escola em casa, os unschoolers prezam pela liberdade das crianças em escolher o que querem aprender e fazer.

Algo interessante de se notar é que a questão mais comum contrária ao homeschooling (a interação social), na verdade não é um problema real. Principalmente nos EUA, onde esses movimentos são mais difundidos, existem hoje uma série de espaços focados nas crianças e adolescentes que são homeschoolers (ou unschoolers). Com programas de tutoria, aulas de diversos assuntos de interesse dos participantes e recursos para que possam desenvolver aquilo que tem vontade. Esses espaços garantem o convívio social dessas crianças e, principalmente, a exposição à diversidade. Um pouco das nossas práticas na Wish também vem desses contextos alternativos, apesar de sermos uma escola.

Mas o que me chamou a atenção no artigo foi a forma como ele amplia o conceito de educação. A educação não é algo dependente da escola. Ela acontece, inclusive, apesar da escola, muitas vezes. Ela tem uma profundidade de nuances e contextos. O contexto familiar também é um contexto educacional essencial para o desenvolvimento da criança, por exemplo.

Nesses tempos de pandemia, a realidade escolar foi bastante alterada Passamos a perceber como esse lugar da família pode ser delicado - ao mesmo tempo que é bom estar mais com a família, também pode ser sufocante ser responsável pela educação dos filhos. É justamente neste ponto que o artigo toca: como os pais, a família, também são responsáveis pela educação das crianças. Mas qual tipo de educação estamos falando? Muitos memes, vídeos e relatos de pais que estão com as crianças em casa durante o isolamento social evidenciam que a família talvez não devesse ser responsável pela educação convencionada como escolar, de conteúdos estabelecidos.

O foco da família seria a educação para a vida. O que é essencial que saibamos para nos tornarmos adultos responsáveis? Cuidar do nosso espaço, limpar a casa, cozinhar (seria bom, mas não essencial), manter as contas em dia, responsabilizamo-nos por nossos atos e nossas escolhas. Quais conteúdos escolares estão relacionados a isso? Existe um período certo para aprendermos essas coisas ou cada um de nós aprendeu conforme a vida foi se apresentando?

Ensinar a viver também é aprender a conviver em sociedade, principalmente a entender o nosso papel na sociedade, é saber que trabalhando em equipe podemos chegar muito mais longe do que trabalhando sozinhos, é respeitar as diferenças de cada indivíduo, sabendo que eu não tenho mais direito do que o outro só porque eu quero.

A vida deveria ser o assunto principal, não só da família (que já o é por essência), mas também da escola. Nenhum conteúdo é mais importante do que o outro, não existe ranking no conhecimento. Também não existe ficar atrasado no conteúdo. Em um currículo vivo, conteúdo é temporal, espacial, situacional. O conteúdo mais importante agora é a pandemia, é lidar com os desafios que ela vem nos mostrando a cada dia, desde ficar com raiva de não poder sair de casa até achar que você já se acostumou com a situação só para descobrir de novo que está com medo. As crianças vão aprender sobre a importância de lavar as mãos e como os vírus operam no corpo, vão aprender sobre a raiz quadrada, vão aprender sobre o convívio presencial e à distância, vão aprender a redigir mensagens para pessoas queridas e a ler outras mensagens enviadas para elas. Enfim, vão aprender a viver, mesmo que seja em tempo de pandemia.


P.S. Edgar Morin escreveu um livro exatamente com o título de "Ensinar a viver". Recomendo para quem tiver curiosidade.



Marina Gadioli


Sócia-diretora, multi-tarefas e correspondente internacional

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