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Mãos pedagógicas

Atualizado: 21 de mar. de 2023

Mãos adultas, mãos infantis,

mãos laboriosas, eloquentes, divinas mãos...


por Céline Lorthiois - parceiro Wish


Dentro de uma proposta de diálogos com a criança interior, conduzi recentemente com uma colega1 um pequeno encontro intitulado: O Educador e a Mão.


O nome parecia enigmático – e, de fato, o era, deliciosamente! – Mas acrescentei pequenos textos esclarecedores às divulgações do evento, salientando que o tema da Mão seria o fio condutor de atividades e trocas capazes de ressaltar a diversidade e o alcance da atuação do educador, de enriquecer seu repertório e de apurar seu autoconhecimento; lembrei que a criança eterna que mora em cada um de nós precisa ser olhada e cuidada, porque dela depende a qualidade da nossa relação com as crianças do nosso convívio. E sugeri:


Vamos dar a mão para essa criança interior?

Vamos juntar as mãos, em torno de atos expressivos?


Isso parece programa para um encontro longo; o nosso foi relativamente curto, intenso, e deixou uma vontade de continuar percorrendo os múltiplos caminhos do tema, que dificilmente cabem na palma da mão!


Espero comunicar essa vontade para os leitores, através do relato do encontro que foi realizado no modo presencial e on-line, simultaneamente.




Mãos que falam

Além das costumeiras apresentações formais, pedimos que cada participante se defina

com um gesto de mão(s).


Convido o leitor a tentar a experiência, e imaginar o gesto capaz de retratá-lo: gesto rápido, elaborado, dançante, ruidoso, inovador ou familiar...


Mãos que desenham

Uma contação de história introduziu a proposta de desenhar a mão; essa singela técnica expressiva escancarou a extraordinária singularidade de cada um dos presentes - singularidade extensível, não tenho dúvida, à toda a humanidade!


Cada desenho exibia um universo diferente, de poesia, beleza, simbologia, organização ou aparente desordem, e, para lá da diversidade dos desenhos, foi perceptível certa tendência em atribuir elementos ou planetas a determinados dedos, como aparece na quirologia e em antigas tradições.


Pelo meio desta tendência, entendo que cada manualidade convoca, simbólica e implicitamente, o universo inteiro e os quatro elementos: cada toque, cada gesto da mão ou dos dedos, quando realizado com consciência, nos ressitua na vastidão cósmica e na matéria, na qual nos refletimos, nos conhecemos e nos espiritualizamos.


Mãos que inspiram

Fizemos em seguida uma rápida incursão pelas inúmeras expressões e ditados brasileiros comportando a palavra mão, contatando assim a sabedoria popular, o humor brasileiro, a esperteza, a fé religiosa...


Mãos pré-históricas

Reverenciamos a mão que, já na pré-história, deixou marcas expressivas nas paredes de cavernas: apelos e testemunhos mudos, lançados em direção ao futuro, a nós e às gerações futuras.


Mãos que tocam

Depois foi proposto o trabalho corporal seguinte para os participantes presenciais: uma pessoa em decúbito ventral recebeu o toque simultâneo das duas mãos de um colega na sola dos pés: palmas das mãos contra solas dos pés.


Em seguida, foi aplicado na mesma pessoa, pelo mesmo colega, um toque sobre o crânio, com as duas mãos formando um delicado capacete.


Para quem recebeu os toques, o contato das mãos do colega na sola dos pés foi sentido como delicioso, houve quem relatou a sensação de uma onda partindo dos pés e percorrendo o corpo até os ombros.


O toque na cabeça promoveu soltura e sensações de conforto inabitual.


Uma moça se espantou ao perceber a suavidade do cabelo do colega entre suas mãos

imóveis, quando aplicava o toque: uma experiencia incrível, segundo ela! De fato, o toque não acariciante, as mãos permanecendo imóveis ensejam percepções incomuns.


A mão que toca é uma mão que irradia, cura, recebe, troca; o toque manual pede para ser considerado sob a perspectiva da fisiologia da mão, indissociável da fisiologia do corpo...


Mãos que são tocadas

Os participantes on-line fizeram um auto toque com sopro sobre suas mãos, cada espaço entre os dedos recebendo um, dois ou três sopros, quentes ou frios.


O que não faz um sopro ao incidir sobre um território ainda inexplorado da mão!


Nesses toques aéreos, as sensações foram de descoberta surpreendente e de descontração.


Mãos que brincam

Enfim, uma brincadeira cantada, uma dança das mãos: os dedos realizaram uma lúdica

coreografia, cada participante a sós com suas duas mãos juntas a dançar; em seguida, a dança foi realizada com um colega em vis-à-vis, palmas de um contra as palmas do outro, e, para terminar, a dança foi realizada coletivamente, todos em roda, cada um juntando as palmas de suas mãos com as de seus vizinhos!


Cinco dedos na mão, sete talentos apontados e experimentados aqui. Na realidade, cada talento inclui os outros seis, não há fronteiras rigorosas entre eles, mas mil e uma possibilidades de sobrepor, enriquecer e criar.


A mão abole fronteiras entre planos do ser, entre pessoas, entre épocas e lugares.


Mãos que criam e rezam

Faltou tempo para ensinar sombras chineses capazes de projetar uma quase-realidade impalpável em paredes e pisos, e alguns mudras, gestos religiosos de poder e de cura; mas ficam aqui as sugestões, para quem quiser prolongar o encontro com as mãos!


E a mão que machuca, bate, ameaça, agride? É uma mão que foi desconectada do coração? Pois as mãos são vistas também como extensões do coração; e é pelos braços que ele chega até elas, a fim de operar seus milagres, emanando cordialidade.


Céline Lorthiois, novembro de 2022

Pedagoga formada pela PUC/SP), com especialização em Cinesiologia pelo Sedes Sapientiae (SP); mestre em psicologia da educação (PUC/SP), focalizadora de Danças Circulares. Idealizadora da Pedagogia Profunda, pedagogia junguiana, que divulga e ensina em cursos livres e em instituições de ensino.


1 Com Maria Lúcia Medeiros (Instagram: marialucia.medeiros.10), no Espaço Satnam, em Cotia, SP, em novembro de 2022.

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