O tempo...

O esperar (Nikos Kazantzakis)

"Lembro-me de uma manhã em que descobri um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei algum tempo, mas estava demorando muito e eu tinha pressa.
Irritado e impaciente, curvei-me e comecei a esquentá-lo com o meu hálito. E o milagre começou a acontecer diante de mim num ritmo mais rápido que o natural. O invólucro se abriu e a borboleta saiu, arrastando-se. Nunca hei de esquecer o horror que senti: suas asas ainda não estavam inteiramente formadas e todo o seu corpinho tremia, no esforço para desdobrá-las.
Debruçado sobre ela, eu a ajudava com o meu hálito. Em vão. Um paciente amadurecimento era necessária e o crescimento das asas devia se fazer lentamente ao sol. Agora era tarde demais. Meu sopro obrigava a borboleta a se mostrar, toda enrugada, antes do tempo. Ela se agitou desesperada e, alguns segundos depois, morreu na palma de minha mão."

Esse texto fala de coisas essenciais que demandam um tempo para se desenvolver e maturar. Achei que a reflexão cabia para essa semana. Com o início do semestre, há uma preocupação enorme nossa em respeitar esses tempos:

- o tempo de um retorno saudável ao presencial, tanto do ponto de vista das demandas de higiene e protocolos como do ponto de vista da saúde mental de crianças, adolescentes e adultos;

- tempo de ouvir as crianças e adolescentes e saber, num momento tão único, o que pensam, sentem e necessitam;

- tempo de trazer os interesses das crianças e adolescentes para as demandas curriculares;

- tempo de ouvir as famílias e buscar atendê-las em suas especificidades - quem possui mais/menos autonomia no ensino remoto; quem quer ou não retornar ao presencial;

Assim, estamos cuidando dos tempos. Enquanto a equipe pedagógica dá atenção aos tempos das crianças e dos adolescentes, a equipe gestora e de apoio preparam a escola em seus protocolos e suas dinâmicas adaptadas ao retorno; enquanto aguardamos os tempos oficiais com relação a datas e autorizações, o comitê de reabertura (formado por representantes de toda a comunidade) escuta as famílias para saber de seus desejos e anseios; enquanto vamos vivenciando de corpo e alma esse momento VUCA, desconstruímos, refletimos, reaprendemos... e seguimos, sem atropelar os tempos, cuidando de um entorno saudável, fisicamente, mentalmente e emocionalmente, para que todos possam crescer suas asas e voar.


Andressa Lutiano

Especialista em Inovação e Educação Transformadora

Sócia-fundadora Wish School

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